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O Que É Ser Americanizado?

Durante muito tempo ouvi que sou americanizado. E isto me era dirigido como uma ofensa, como algo vergonhoso, como um crime contra a pátria. Mas eu mesmo nunca me incomodei com isso. Na verdade, eu nunca concordei com isso de fato. Mas entendo que as pessoas pensem isso. Só não entendo a revolta. A melhor postura sobre isso veio da minha esposa, que há pouco tempo me disse: "você é sim, mas e daí!?"

Acontece que sou assim classificado por falar Inglês e por preferir música americana, séries americanas, esportes americanos... contra tais argumentos, nada tenho a falar. Porém, se isso me faz americanizado, eu sou tão italianizado quanto, pois massas são meu tipo de comida preferido. E durante minha infância/adolescência fui japaneizado, pois só o que eu fazia era assistir a Jaspions, Changemans e Jiraiyas da vida - na infância - e Cavaleiros do Zodíaco - na pré-adolescência. No fim das contas, para mim, todos estes argumentos se resumem a gosto - que todos sabemos que não se discute - e qualidade do que é apresentado. E é aí que eu deixo de "me tornar brasileiro".

A questão de gosto não há como argumentar. Quem me julgará por preferir Hip Hop e Rock a Sertanejo, Pagode e afins? E não é porque eu "não entendo a letra" - como muitos costumam criticar -, já que sou fluente no idioma Bretão, mas por achar o Inglês um idioma mais sonoro, mais agradável, e as batidas do Hip Hop mais contagiantes do que as do Funk carioca - sem contar que os cantores americanos sabem cantar.

Já quanto a filmes e séries, o que me pega mais, além do gosto, é a qualidade, o texto e as tramas, originais em sua grande maioria. A qualidade da Globo em fazer novelas é inquestionável, porém suas tramas são sempre as mesmas já há muito tempo. As séries de TV daqui são, em sua maioria, repetitivas e com o humor já há tanto ultrapassado. E o cinema Brasileiro, em sua maioria, ou é um espelho das tramas Globais, ou tem caráter histórico-cultural - culpa do ridículo plano de incentivo ao cinema do nosso país. Além do mais, a quantidade de produções americanas é muito maior do que a da soma da maioria dos países, o que torna maior a chance de se tirar qualidade da quantidade.

Faço um desafio a você, que está torcendo o nariz para o que falo: experimente assistir, desde o começo, a uma transmissão de Football, Baseball, Basquete, ou até mesmo da Nascar ou da Indy. Me diga que não fica impressionado quando, ao final da apresentação do Star Spangled Banner, hino nacional americano - que para mim está entre as mais belas melodias do mundo em termos de hino, ao lado de God Save the Queen (Inglaterra) e Fratelli D'Italia - vir os aviões de caça passarem em absurda sincronia. Depois assista a uma corrida de Stock Car, ou um jogo da NBB (alguma referência à NBA!?), que, por incrível que pareça, nem site oficial tem. Depois tente tirar minha razão.

Aliás, o mesmo pode ser aplicado aos campeonatos de futebol Inglês, Italiano ou Espanhol, em relação ao "Brasileirão". Achar tais eventos mais agradáveis de se assistir faz de mim o quê, um Europeizado!?

Mais uma dúvida: o fato de alguém encher a cara de tequila, whisky, vodka, champagne ou cerveja o torna alguém mexicanizado, escoceizado, russiizado, afrancesado ou alemanizado?

Uma atitude que considero deveras idiota em toda essa palhaçada é a de quem fala "estadonidense" ao invés de falar "americano". O nome do país é Estados Unidos da AMÉRICA. Se fosse assim, o coerente seria nos chamarmos "repúblico-federativenses", já que o nome do nosso país é, oficialmente, República Federativa do Brasil.

Outro fato que me deixa indignado é o xenofobismo ignorante, como o das mensagens espalhados pelo MV-Brasil, que prega que não chamemos o Ano Novo de Reveillon, ou o do projeto dos Exmos. Srs. Aldo Rebelo e Ângela Guadagnin de forçar a comemoração do Dia do Saci em detrimento do Halloween, que nada tem a ver de fato com sua tradução porca em Língua Portuguesa: Dia das Bruxas.

Agora é hora de mostrar o quão patriota eu me considero. Escolhi uma profissão que, por si só, ajuda milhares de brasileiros a melhorar de vida. Embora apaixonado pelo Inglês, eu domino meu idioma, não o assassino, não o desvalorizo. Eu não quero passar ninguém para trás, nem tirar vantagem de ninguém. Faço a minha parte perante nossa sociedade, não jogo lixo no chão, não sujo praias, não mijo na rua. Sempre procuro votar conscientemente, e corro atrás de estar em dia com meus deveres, para poder exigir meus direitos. Eu não maltrato, distrato ou tento me aproveitar dos estrangeiros que conheço. Sou educado com todos ao meu redor. Procuro fazer sempre tudo da maneira o mais correta possível. Isso, para mim, é ser realmente BRASILEIRO. E você?

Afinal, o que é nosso de fato? O samba? Não, este veio da África. O Carnaval? Não, este é celebrado no mundo todo, nós só fizemos o desfavor de transformá-lo em uma imensa desculpa nacional para se fazer tudo o que não temos coragem de fazer durante todo o ano. O futebol? Veio da Inglaterra. A religião? de Roma. Nem o idioma nós temos, já que este também nos foi emprestado pelos Lusitanos, e somado ao léxico tupi-guarani e aos vários dialetos africanos. Somos todos frutos desta imensa mistura, e é esta nossa natureza: receber e assimilar culturas diferentes.

Então, antes de criticar as pessoas que aceitam a mistura cultural que faz e sempre fez parte do "ser brasileiro", se instrua, se analise, olhe para o próprio rabo. Ou então arranque suas roupas, vá para a mata e volte a viver como os nativos. Estes sim são possuem uma cultura pura, e são 100% daqui.

Em Tempo: Los Hermanos está entre minhas bandas musicais preferidas, e um dos estilos que mais ouço é pop-rock brasileiro dos anos 80, como Blitz, Ultraje, Capital, etc.

13 comentário(s):

  1. Muito foda, concordei com tudo !

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  2. Se Los Hermanos é exemplo de musica brasileira então não sou patriota :o)
    Fora brincadeira sou totalmente a favor do que falou, mas aqui é minha casa, seja lá pra qualquer país que eu vá serei sempre estrangeiro e contam que são poucos os países que são receptivos como o nosso.
    Busco qualidades aqui e vejo muitas e acho legal participar da construção da história da nossa muito recente pátria. Afinal, qual a graça de pegar tudo pronto? :O)

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  5. E daí se vc é americanizado, por que gosta das coisas de qualidade que vêm de lá? Esta noção exaltada de pátria tem o seu valor na hora de fazer política externa, na hora de crescer economicamente, mas não cabe nas situações que você descreveu. As pessoas confundem conhecer e apreciar as boas coisas da vida (no mundo todo), como uma espécie de renegação da cultura brasileira. E é com isto que eu não concordo. Afinal, o que é a cultura brasileira, se não uma mistura de tantas outras? É claro que é importante preservarmos nossas raízes, nossa memória, mas isso não quer dizer nos fecharmos para o resto do mundo. O que é isso, exílio socio-cultural? Somos todos seres humanos, fazendo arte, lutando, trabalhando, criando... Os limites políticos e territoriais apenas delimitam práticas e modos de vida diferentes, devido muitas vezes às próprias condições climáticas, geográficas e econômicas. Mas no fim, somos todos iguais. E todos merecemos sermos ouvidos, respeitados, apreciados. Sendo assim, eu te absolvo de todas as acusações injustas que você sofreu ao longo de todos estes anos. rs Mas também, te faço um apelo. Que você dê "stop" agora neste processo de se tornar um radical de contrapartida a estas acusações, deixando muitas vezes de ouvir, conhecer, assistir e apreciar, muitas coisas de qualidade que acontecem bem aqui, embaixo do seu nariz :) Em tempo: Obrigada pelas coisas legais que vc me apresentou este ano. Te amo, bjs.

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  6. Aiai... Então Ng poderia comer macarrão, pizza, nem usar computador, e se fosse para ser só "brasileiro" mesmo, td mundo ia ter q sair daqui pq, apesar de termos nascido aqui, todo mundo é descendente de pessoas q vieram para cá de outros países. Em sua maioria da Europa, África e Japão.
    Bom senso para escolher o que é bom e o q é ruim. Parar com esses lances de embalo, modismo... E sim conhecer a fundo todas as culturas q temos por aqui sem esquecer que, se elas fazem parte da nossa região, família, clã ou sei lá o que, elas vieram de fora um dia e muito mais coisa virá.
    Isso é evoluir, agregar.
    Bjo...

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  7. Este é um país livre e você é livre pra gostar do que quiser, o quanto quiser, do jeito que quiser, ora bolas! E concordo com o que disse de sermos "assimiladores de cultura". Nossa cor reflete isso, nossos sobrenomes refletem isso. Mas E D-A-Í? Não gosto de rótulos, gosto de pessoas. ;)

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  8. Interessante seu blog!
    Se me permite um "pitaco", parece haver enraizada na América Latina uma tendência a atribuir a culpa pelo subdesenvolvimento de alguns países a "uzamericanu".
    Na realidade, as causas me parecem ser internas, e estão nas atitudes individualistas, na falta de uma consciência como cidadão e no culto pela chamada "lei do Gérson". Acho que cada povo é responsável pelo país que tem, pois, numa democracia, o povo é quem escolhe que tipo de pessoas quer para administrar seu país, fazer suas leis e aplica-las.
    Mas, é mais fácil atribuir seus problemas a um povo que fez um país melhor para si mesmo.
    Talvez daí venha essa antipatia pelos americanos! Por que não temos antipatia pelos corruptos daqui mesmo?

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  9. Washington Luiz14/4/12 22:31

    Meu caro!
    Em primeiro lugar quero lhe parabeizá-lo pelo belo e competente texto. Realmente, gostamos de algo porque nos apraz e isso não quer dizer que estamos renegando a nossa nação. Bobagens dos pseudosintelectuais. Eu também não sou antiamericano, e olha que sou comuna, e a maioria dos camaradas meus os odeiem, mas... fazer o que! Eu só acho, se permite praticar meu achismo, que os brasileiros gostam de imitar os "gringos" em determinadas coisas e, mesmo assim de forma distorcidas que são ridiculas. Veja o caso do "politicamente correto", do "bullyng" e outras "coisitas", mas não os imitamos no que eles tem de melhor, como por exemplo o sistema de justiça, que funciona, enquanto aqui... Outra coisa que poderíamos imitar é o respeito a "meritocracia", como eles e por fim, o prossionalismo, coisa que muito falta por aqui, principalmente na nossa profissão. Agora, quanto ao "Halloween", eu não concordo, prefiro o dia do Saci mesmo. Mas, não ficar inimigos por conta disso né. Afinal pensar diferente não torna ninguém inimigo. Um abraço
                                 Professor Washington Luiz.

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  10. SandroAtaliba15/4/12 00:00

    Inimigos? De jeito nenhum. Pensamentos diferentes são o coração de qualquer discussão. E pessoas que divergem, mas que sabem respeitam pontos de vista alheios são sempre bem-vindas.

    Fique à vontade para comentar sempre que possível.
    Um abraço!

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  11. Arturvreis23/5/12 18:33

    Amigo, qual a sua profissão,  fiquei curioso! valeu, já segui no youtube

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  12. SandroAtaliba23/5/12 18:42

    Sou professor de Português e Inglês, tradutor, revisor, essas coisas. rs

    Valeu pela força!

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  13. Desculpa de americanizado é buscar defesa nas raizes e influencias de nossa cultura. Nosso país nao tem tanto poder cultural pois nosso povo é vitima do sistema "democratico" brasileiro onde toda uma geraçao é influenciada à nao filosofar sobre si e sobre o país. Você é hoje do jeito que é pois o seu passado assim o fez, a culpa não tua, afinal, somos desde pequenos forçados pelo nosso espirito a si identificar com algum grupo onde um grupo inicial muitas vezes nos leva algum lugar que nao conseguimos mais sair. Americanizado ou não voce não precisa dar valor para tudo o que a esquerda ou direita fale ao povo o que é cultura, sou da opinião que "Si tá ruim, faça voce de coraçao pra mudar alguma coisa" pois senão um futura geraçao questionara a Deus e o Mundo "- Por que nao nasci nos E.U.A ou outro país de primeiro mundo?".

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